Das coisas que eu tenho medo de dizer…

Hey peeps…

Dias atrás (ou talvez semanas) (ou talvez meses, esse post ficou no rascunho um tempão), um dos blogs que eu leio aderiu a este projeto aqui, numa tentativa de trazer um pouco mais de realidade para a blogosfera, afinal, vamos combinar que a grande maioria dos blogs (e não falo aqui apenas sobre os blogs de imigração, afinal, há tempos que eles não compõem a maioria das minhas leituras diárias) é feita de pequenos retalhos, normalmente os mais bonitos, e quem escreve faz o filtro…

E eu sinto um pouco de mea culpa, afinal, acho meu blog bem Pollyanna… hehehe… Eu justifico isso pela forma como passei a ver a vida depois do câncer da minha mãe… eu sempre fui extremamente revoltada com o universo (Mamis foi uma santa por ter aguentado minhas chatisses na adolescência)… hoje não sou mais (ou tento não ser mais)… mas, ó, não confundam minha falta de revolta com passividade… hoje eu vejo a minha vida como resultado das minhas escolhas… se eu escolhi certo e isso me fez feliz, ótimo… se seu escolhi errado (e eu não vejo problema nenhum em errar), se eu não estou satisfeita, hora de reavaliar e mudar, nunca de ficar reclamando passivamente da vida (no melhor estilo “Ó vida, ó céus, ó azar” do Hardy Har Har)…

Bom, e aí que eu achei legal a iniciativa, e resolvi fazer uma versão imigrante… hehehe… e sem mais delongas…

O Québec me decepciona diariamente… na hora que eu pago imposto  (que criam novos impostos – especialmente se esse mesmo imposto existe em outra província e lá a alícota é menor, que aumentam a alícota do imposto), na hora que eu não recebo quase nada em retorno (se comparado com casais e casais com filhos, e obviamente o povo que mama do BS), na hora que a gasolina e, consequentemente, o leite aumenta (e como o leite tem aumentado), na hora que eu vejo ruas, pontes, prédios com manutenção deplorável (e a decepção aumenta ainda mais se na mesma hora eu lembro dos impostos), na hora em que tenho que esperar meses para consiguir uma consulta no que pode ser o meu médico de família, na hora que o vejo o budget do Office québécois de la langue francaise e custo dos recursos que são utilizados para se manter o francês na província (eu não quero fazer discursos sobre minhas opiniões sobre o assunto, mas posso resumir grosseiramente minha opinião na seguinte frase: ‘a máfia da construcão, o OQLF, as Commissions Scolaires fracófonas e o Parti Québécois estão na minha lista do que há de pior na província’). Acho que minha lista tende a crescer; mas, apesar de tudo, eu ainda não estou decepcionada a ponto de partir… longe disso… eu imigrei consciente… mas a minha primeira forma de racionalizar, o famoso ‘no Brasil é pior’, não está colando mais. Eu acredito na social democracia e eu quero mais para o Québec e, incrível dizer isso já que nas últimas eleições brasileiras eu ia quase que arrastada para as urnas; não vejo a hora de ser cidadã para poder votar.

Detesto o mimimi de brasileiros… D-E-T-E-S-T-O! E por mimimi entendam:

– todo o papo de sofrimento do expatriado (ou exilado) – desculpe, mas nenhum brasileiro é exilado de fato. Imigrar é difícil, mas não tem que ser só sofrimento (até entendo que para muitos pode ser sofrido, especialmente no início) e mais, imigrar só é para sempre se você quiser… e se a vida aqui é tão ruim, ou tão difícil, é hora de reavaliar;

– de discursos ‘minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá’*;

– da necessidade constante de ter bolacha Bono (e outros produtos brasileiros) estocados no armário, e se gabar disso;

Eu ainda acho que me comunico muito mal… No começo do ano um amigo, ex-colega de trabalho do Brasil, esteve aqui de visita… conversando sobre a questão do francês/línguas/comunicação, etc… e ouvindo minhas reclamações sobre a qualidade do meu inglês/francês, ele me interrompeu por um minuto e soltou um: ‘Juliana, você sabe que você se cobra demais, né?’. Eu sei.

Outro dia meu chefe ficou surpreso quando eu confessei que parte da minha quietude se dá porque  eu sinto que eu soo muito mais idiota do que de fato sou… Pra ele eu não soo idiota. Mas é difícil não achar que parte do que você está tentando comunicar não acontece quando as pessoas (o chefe incluído) não conseguem distinguir meu ‘eu’ normal, do meu ‘eu’ sarcástico, do meu ‘eu’ irônico.

E tudo isso é com relação ao inglês, ok? Minha comunicação em francês é um capítulo a parte.

O francês… Bom… o francês… eu ainda tenho muita dificuldade com ele (eu leio, eu entendo, mas não falo)… às vezes acho que teria sido diferente se eu tivesse feito francisação… mas a verdade é que muitas vezes eu simplesmente desisto de falar francês no dia a dia… especialmente quando você tenta conversar com alguém é só ouve ‘quoi?’, ‘quoi?’, ‘quoi?’ para tudo o que você fala – e isso é tão comum, não só para mim. É frustrante e desmotivante para dizer o mínimo (e eu sei que não é por mal, mas eu interpreto isso como ‘seu francês é uma merda’ mesmo que não seja exatamente essa a intenção da pessoa; e o que me entristece é que muitas vezes é uma questão de sotaque – dificilmente um francês diz ‘quoi?’, ‘quoi?’ para mim, montréalais também não, mas é só sair da ilha para eu começar a sentir mais dificuldade em me fazer entender – a impressão (e ressalto o ‘impressão’, ok?) é que québécois de souche que se preze não quer e não vai te entender a menos que você fale québécois).

Existem mais coisas que eu tenho medo de dizer, mas se eu quiser dizer tudo, esse post corre o risco de não sair nunca.

:)

* Para relembrar:

Canção do exílioMinha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em  cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá. 

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17 pensamentos sobre “Das coisas que eu tenho medo de dizer…

  1. Parabéns pelo post, Ju Lucas. Sinto tambem na pele, todos os dias, o que você quer dizer. Mas como você disse, são nossas escolhas e são elas que nos fazem pensar diferente: é preciso atitude !

  2. Ju,
    Te entendo, ah como te entendo. No meu caso eu não escrevia as coisas “ruins” para proteger a minha família e amigos, pq o primeiro ano como imigrante eu sempre defino como uma TPM durante 365 dias.
    Eu tb tenho ficado desapontada com várias pequenas coisinhas que tem acontecido e principalmente com a mente pequena de certos quebécas, mas eles não são a maioria… Tem que pensar nos dois lados e por enquanto a balança ainda está pelo lado positivo. Para mim o que mais pegou nesses dois anos que estou aqui foi a dificuldade com o emprego e um pouco (muito) do preconceito por causa do diploma e a minha experiência não ser daqui (vide cabeça pequena). Mas estou feliz agora fazendo um curso que eu gosto bastante e adoro a McGill :) Mas não sei o amanhã… risos. Confesso que fico tentada em ir para a província vizinha, pagar leite mais barato, mas por enquanto a vontade passa. E tenho vontade de chorar toda vez que vejo o quanto eu pago de imposto, tem horas que eu tenho vontade de ter uns 5 filhos.
    O Francês? Ah, o francês… No começo eu tinha muita raiva pq automaticamente as pessoas começavam a falar em Inglês comigo, mas depois eu aprendi que as pessoas estavam tentando ser boazinhas, sem saber que estavam me deixando deprimida – nossa, meu francês é tão ruim que as pessoas não deixam nem eu tentar… Mas aí eu liguei o botão mágico (o f…-se) e a coisa tem melhorado. Claro que o cérebro não gosta de falar em Inglês o dia inteiro (zona de conforto) e o resto do tempo em Francês e tem horas que não sai língua nenhuma, mas faz parte da vida de imigrante :).
    O importante é ainda poder escolher (e rir e aprender com as “más” escolhas) =)
    Beijos

    • O importante é ser feliz… os desapontamentos sempre vão existir, e enquanto o meu saldo estiver positivo, fico onde estou (mas não posso negar que às vezes dá vontade de largar tudo e ir pra Alberta, ou então de ter filhos – produção independente para ter mais retorno do IR… hahaha)

      :)

  3. Eu tô aqui a pouco tempo, mas já me sinto assim com relação ao francês… Eu fiz um pedaço da francisação, confesso que ajudou um pouco, pois tá bem melhor do que quando eu cheguei, porém ainda acho que eu nunca vou conseguir falar o francês daqui… parece tão mais fácil o francês da frança, qnd eu ouço eles falando rsrs
    Com o meu nível de francês atual, ainda é impossível ter uma conversa “completa” sabe? Ficam só frases soltas… um horror rsrs. Resultado, acabo sempre indo pro inglês, onde não é perfeito, mas é o suficiente pra se comunicar rs

  4. Oi Ju. Parabéns pela iniciativa deste post mais “real”. E btw, não acho que seu blog seja Pollyana. Bom, essa é a minha impressão.
    Nossa, eu ainda nem cheguei e já fico me perguntando sobre essa questão dos impostos. Paga-se, paga-se, paga-se, os impostos só aumentam, os preços só aumentam, há escandalos por toda parte (eu concordo com a sua listinha do pior da província), e ao que me parece pra quem é solteiro e sem filhos só resta pagar sem receber os benefícios que os demais recebem. Às vezes eu me pergunto se é isso mesmo que eu quero pra mim, mas acho que só vivendo pra saber, e como não cheguei ainda, vai demorar alguns anos para eu poder responder essa pergunta.
    E quanto ao inglês/francês, é difícil. Principalmente para as pessoas que se cobram muito (eu sou assim tb). Essa semana estava estudando regras gramaticais de francês e não conseguia avançar, estava de saco cheio, aquilo estava me atormentando e eu pensei: quer saber, tem zilhões de pessoas com bons cargos no Brasil, ganhando um super salário, sendo respeitadas em suas profissões e que cometem erros crassos em português, sua língua materna. Por que eu, que comecei a estudar francês há míseros dois anos tenho que saber tudo? Eu posso cometer erros, isso é normal. Isso vai acontecer muito e eu tenho que me acostumar. Eu provavelmente nunca (ou vai demorar muitos e muitos anos) vou conseguir me expressar em inglês ou francês da mesma forma que o faço em português. E tenho que aprender a conviver com isso. Foi escolha minha e tenho que aceitar minhas limitações.
    E minha professora de francês já dizia: você não pode ter vergonha de falar. Mesmo que você ache que está errado, fale. É o único jeito de aprender e melhorar.
    E para aqueles de cabeça pequena que não sabem conviver com o novo, o diferente, esqueça-os. Gente estúpida e tapada tem em todo o lugar do mundo e ao meu ver não merecem nossa atenção.

    ps: não que eu acho bom ou aceitável pessoas cometendo erros de português, ou qualquer língua que seja, mas talvez eu dê um valor maior a isso do que a maioria das pessoas. Tem tanta gente falando e escrevendo tudo errado e não tá nem aí e é feliz. Eu os invejo de certa forma.

    Bjos
    Camila

    • Olha, não vou dizer que não é frustrante… eu tenho uma amiga, solteira, que acabou de comprar um condo e que não conseguiu taxa de hipoteca tão boa quando a de casais cuja renda somada é menor que a dela… a razão? pq é solteira e não tem co-signer (e mesmo a esposa que não tem emprego pode ser co-signer e garantir taxas mais baixas) … pra quê padre/igreja se a aqui existe o estado pra dizer ‘crescei e multiplicai-vos’?… Eu não consigo não me sentir penalizada pelas escolhas que eu faço sobre ser solteira… muito mais penalizada do que eu me sentia no Brasil, no Brasil o peso era muito mais cultural, aqui é financeiro mesmo… hehehe… mas, ao mesmo tempo, existem n outras coisas que fazer ter imigrado valer a pena…

      Ah, meu chefe (um diretor) não sabe a diferença entre their e there… hehehe…

  5. Ju, adorei o post! É bom você expressar esses desapontamentos pra irmos nos preparando a eles.
    O mundo não é perfeito, por que o Québec seria?
    Só acho que a gente tende a prestar mais atenção aos defeitos daí, mesmo que inconscientemente, a gente quer encontrá-los e compará-los com os daqui, ou pelo menos achá-los e verificarmos que existem, são muitos, e que o Brasil não é o único lugar torto do mundo:) Mas, isso tb não é desculpa pra redimir terra tupiniquim :) Acho que só é inevitável e que não se pode ser hipócrita acreditando que o Canadá é livre de corrupção, cabide de emprego, problemas sociais e econômicos, violência, etc, etc…Penso, sinceramente, que é menos do que aqui e por isso estou trocando.
    Só espero que as aves que ai gorjeiam não gorjeiem como as daqui, eu quero mudança, quero experimentar o novo, mesmo sabendo da dificuldade de fazê-lo.

    • Oie!

      Eu imigrei pra cá sabendo que não seria perfeito… que o Québec tem um ranço de Brasil muito mais forte que as outras províncias… Adoro essa terra, sou apaixonada por ela, mas às vezes pergunto se alguns anos de pequenas frustrações acumuladas não vão me fazer desgostosa a ponto de me motivar a mudar novamente.

      Coisa que só o tempo dirá… hehehe

  6. Sabe q muitas vezes fico pensando em escrever posts mais…. claros, porém fico com receio de magoar muita gente. Mas eu acho importante pelo menos colocarmos um pouco do azedume pra fora pois ajuda quem está vindo.
    Quanto ao seu francês…. A esquizofrenia montrealais tem me irritado profundamente, muitas vezes me pego sonhando com um lugar em q não escutarei e não falarei inglês.hehe. Trabalho em inglês e meu inglês êh melhor q o francês, mas não gosto dessa língua…. Porém fazer o q, êh a vida.

    Bjao

  7. Na verdade, considero o seu blog mais como um diário. Têm dias bons, outros ruins e isso o faz tão interessante. E acho que quando a gente sabe revelar nossas fraquezas e a parte sombria de nós, isso acaba demonstrando o quão forte nós somos.
    Bisousss

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